23/05/2024 às 11h24min - Atualizada em 23/05/2024 às 11h24min

MG: Escola estadual em Belo Horizonte luta para não fechar devido ao NEM

O jornal a nova democracia entrevistou a professora Natália da escola Tito Fulgêncio. A escola Tito Fulgêncio iniciou um vigoroso movimento de professores, alunos e comunidade escolar, contra o Novo Ensino Médio (NEM).

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O jornal a nova democracia entrevistou a professora Natália da escola Tito Fulgêncio. A escola Tito Fulgêncio iniciou um vigoroso movimento de professores, alunos e comunidade escolar, contra o Novo Ensino Médio (NEM). O movimento se chama Todos Pelo Tito. Devido a imposição do NEM em período integral a escola perdeu a maior parte de seus alunos pois eles precisam trabalhar no contra-turno para ajudar suas famílias. A escola atualmente corre o risco de ser fechada.

Veja o relato da professora:

AND: Natália, gostaríamos de agradecer a oportunidade da entrevista. Pode começar se apresentando e apresentando parte da escola Tito Fulgêncio.

Natália: Eu sou a Natália. professora de ciências e biologia e leciono há mais de 10 anos no Colégio Tito Fulgêncio. Me sinto parte da história da escola apesar de ela estar fazendo 80 anos então sou apenas uma pequena parte disso. Foi a primeira escola pública que entrei como professora efetiva, tenho uma relação forte com ela Eu vi alunos passarem do sexto até o terceiro ano, e isso vai te deixando com uma relação afetiva com a comunidade. Tenho irmãos de amigos que formaram comigo, mãe de outros alunos que formaram comigo.. Isso fortalece muito a comunidade quando acontece. Por isso os sindicatos lutam para terem professores efetivos na rede ensino. É mais difícil obter esse elo quando os professores são temporários.


 AND: Nos conte sobre o processo de integralização da escola Tito Fulgêncio.

Natália: O Ensino Médio era regular. O NEM veio depois, mas antes do NEM veio o ensino médio integral. Ele veio durante a pandemia. Estávamos num formato remoto. Não é um acompanhamento real, presencial, do desenvolvimento do aluno, mas existia um acompanhamento, os PETs (Plano de Estudos Tutorados), planos de acompanhamento. Mas fazíamos à distância. O NEM integral foi proposto nesse período da pandemia. O aluno ter um tempo integral poderia ser um problema pra manutenção da escola. Ainda não tínhamos dimensão real do impacto que teria para os alunos e comunidade. Quando retornou presencial, eles tinham que ficar 9 horários integralmente. São 10 horas por dia. Ele fica 07h00 até 16h40 na escola. Isso é muito cansativo. 

Quando estávamos em 2020, quando foi implantando esse NEM em ensino integral, havia 254 alunos somente no ensino médio. Em 2022 foi de 250 para 150 que reduziu. 100 alunos evadiram a escola. Alguns alunos foram para outras rede de ensino, de tempo regular. Isso foi acontecendo, até que agora em 2024, o último levantamento é que estão matriculados 96 alunos. De quase 300 alunos, quando não tínhamos integral, para basicamente 100 pessoas. Entendemos dessa forma que a comunidade não conseguiu se acostumar com o Ensino Médio em tempo integral. Em 2021 permaneceram, mas em 2022 não era mais possível. Precisam ajudar em casa com outras coisas, ajudar irmão, mãe. As realidades que vimos na educação pública são muitas, e bastante diferentes. Não conseguimos colocar todo mundo num mesmo programa. Para nossa escola foi somente autorizado a oferta em tempo integral. O que estamos pedindo é a oferta em tempo regular. Não estamos pedindo para retirar a oferta em tempo integral porque 100 alunos estão estudando nesse período. As vezes as famílias precisam. Outros 200 não se adequaram, e eles são muito representativos na comunidade. Queremos ter o ensino médio novamente em tempo regular. A gente não quer que o ensino integral acabe, isso não nos atrapalha. O que atrapalha é não ter a oferta do ensino médio regular. “Perto não tem outras escolas regulares?” as pessoas questionam. Perto para mim é quando é uma distância considerável. As escolas mais próximas que oferecem escola regular os alunos têm que andar ou arcar com custo de passagem. Estamos pedindo e exigindo a oferta do tempo regular. Primeiro que é uma demanda da comunidade, segundo que é garantido por uma lei que foi aprovada na Assembleia Legislativa, dia 4 de outubro, Lei nº 24.482. MG tem uma índice de evasão muito alto. Quem escolhe o modelo não é o governo, é a comunidade. Mas conosco foi diferente. Não foi uma demanda da comunidade, foi uma imposição do governo que tivemos que aceitar. Isso é basicamente um passo pro insucesso. Imagina adotar uma política pra um ambiente sem ter feito nenhum estudo. São mais de 400 assinaturas que coletamos contra o ensino médio integral. Não sabemos mais o que precisamos fazer para ter um direito garantido. Fomos atrás de representantes políticos, temos uma audiência para ser marcada. O que falta para conseguir abrir esse ensino médio regular? O que está na lei nós temos. 

O movimento todos pelo Tito surgiu para garantir direitos de uma comunidade que é muito unida, que precisa muito que aquela escola exista. Uma escola de 80 anos não foi construída por um governo, foi construída por uma comunidade. Tudo que você chama os pais, eles participam. Por que não foi ouvida antes? Ao mesmo tempo que incentivam o ensino integral, também ofertam o programa jovem aprendiz, que tira o estudante da escola integral. Qual modalidade de ensino médio ele poderia fazer? Deveria ter uma escolha. A existência do ensino regular é nossa demanda, perdemos 200 pessoas, é muita gente. Abrimos mão de pessoas que estudavam desde o 6º ano. 

AND: Como está a situação da evasão escolar em 2024?

Natália: Esse ano já tivemos fusão de turma. O governo observa que existe poucos alunos em cada turma, funde a turma e fica uma só. Fundimos 2 turmas, duas de primeiro ano e duas de segundo ano. De 6 para quatro turmas esse ano. Tradicionalmente a escola Tito sempre teve 10 turmas de ensino médio. No período matutino ficam 6 salas vazia, onde poderiam estar abrigando o ensino médio em tempo regular. Queremos que a escola esteja cheia de alunos. As escolas não existem para ficar com portas fechadas. É um prédio que está sendo reformado, reforma de mais de um milhão. Agora que a comunidade consegue a reforma, ela não pode estudar dentro da escola. A modalidade de ensino que está sendo oferecida não é mais ofertada. Para que a escola está sendo reformada então? A reforma incluí laboratório, ginásio, refeitório. A escola está ficando maravilhosa. Mas a comunidade precisa estar lá dentro. A escola é maravilhosa, o prédio é maravilhoso, mas ele é funcional somente com a sala ocupada de alunos. Porque o prédio é somente prédio. Então essas salas que estão sem uso, elas não estão fechadas pela escola. Elas estão fechadas por conta da modalidade de ensino. Desde a época que tinha 300 alunos até hoje. Poderíamos pensar em vários fatores de evasão, mas nenhum deles justifica a evasão de 200 pessoas. Ouvimos que os estudantes estavam evadindo por conta dos professores não serem bons, porque não eram bons profissionais. Os profissionais eram os mesmos antes do ensino médio integral. Eu não tenho como admitir e colocar em xeque meu profissionalismo, e admitir que eu, Natália. me tornei tão mal, o que geralmente não acontece, porque nos tornamos melhores. Nos tornamos tão ruins a ponto de motivarmos 200 alunos a evadirem?

Temos envolvido a comunidade, pais, alunos, inclusive até representante da secretaria de Estado de Educação foi conversar sobre a insatisfação deles. O que  deixava eles insatisfeitos com o ensino médio integral? Fazemos reunião com membros da comunidade, um abaixo assinado eletrônico, físico. Passamos no comércio da região para valorizar a escola, e evitar um possível fechamento da escola. Quando uma escola começa a diminuir o número de alunos, é um destino previsível que tende a fechar. Os custos se tornam muito para poucos alunos. Criamos um grupo de WhatsApp chamado Todos pelo Tito, Instagram todos pelo Tito, viemos publicando as ações para conseguir juntar cada vez mais pessoas. Levávamos nossa demanda para manifestações, paralisações e acabamos encontrando representantes políticos. Temos deputados estaduais, federais, que têm nos ajudado dando voz, cobrando da Secretaria de Educação, marcando audiência pública, para poder nos ajudar na parte que não nos cabe. Que a gente não tem competência daquilo. Então tem uma parte que a sociedade civil consiga se mobilizar, e tem outra parte que é do representante político. Elas têm o papel de movimentar pautas do interesse da comunidade, têm representantes políticos que já estudaram na Escola Estadual Tito. Quando falamos de uma pauta educacional, ninguém é contra a educação. Seria o contrário se falássemos: queríamos muito que o governo fechasse a escola. Todo mundo se afastaria da gente. Queremos mais modalidade para os alunos. É uma pauta que é difícil organizar pessoas em torno dela. É contra a política que está sendo implementada por este governo. Ele não está acima de lei alguma. Ele também responde a questões e demandas da comunidade. 

AND: Quais conflitos vocês enfrentaram na luta pela regularização do ensino médio na escola Tito?

Natália: Em 2022 tivemos uma reunião com representantes da Secretaria de Estado. Houve uma fusão de turmas na escola, e foi o ínicio de conflito na escola. Isso causou um conflito. Pedimos que os representantes fossem até a escola. Eles acharam que seria uma questão de adaptação, que demoraria a se adaptar. Não poderia coexistir o ensino integral e o regular na mesma escola, isso era proibido. Não tinha uma lei contrária, ou uma lei que desse a abertura. Nenhum aluno quis se matricular no integral mas todos queriam no regular, então significava alguma coisa. O modo como ele foi implementado é estadual. Em Minas, ocorreu sem estudo, sem preparo, tem que ser um ambiente, é muito tempo, tem que ter atividade de fato diferenciada.

Não é uma cartolina a mais, um computador a mais, é algo bem maior que isso. Além disso, aconteceu dessa forma: somente escola integral. Eaíí isso tirou do aluno e da família, uma escolha. Como que uma pessoa pode ser formada pra ser cidadã se ela não pode escolher? Tem pessoas que não escolhem na vida, não fazem escolhas. Elas precisam estudar em determinada modalidade por conta das condições de vida que ela tem. Você só pode estudar aqui se ficar o dia inteiro. Mas ele precisa trabalhar então não pode estudar aqui. A política de ensino integral é no Brasil todo, mas não haver escolha para ensino regular não faz sentido algum. Não vivemos numa comunidade homogênea, onde todos têm as demandas atendidas, moradia, lazer. A escola não pode ser a única parte que ele é assistido. Ele tem que ser realmente um aluno da escola integral. Como ele fica 10h na escola e a família dele não tem direito à alimentação, moradia? Ele vai ficar lá? Eu sei que tem o programa de escola integral no Ceará, porque elas são muito preparadas, equipadas. Não sei em que pé isso acontece lá, como foi implementado, mas a forma que foi implementado aqui foi muito precário, percebe-se quando as coisas são colocadas de qualquer maneira. Não tem ninguém bobo. Alguns alunos não ficam no ensino integral.  As vezes é a estrutura da escola mesmo, as vezes é o interesse. Tem aluno que não tá interessado naquilo. Tem estudante que vai um dia, falta outro, eles não podem sair de dentro da escola. Eles podem sair do portão. Nem ir ali na esquina. Eles ficam no mesmo ambiente durante 10 horas, sem poder minimamente sair da escola. Não conheço pessoas que tenham disponibilidade para esse horário. Não consigo ver um lazer, um dia de uma pessoa não pode ser somente fazendo atividades produtivas. Ela não pode ter só atividades direcionadas. Tem uma disciplina de meditação, mas é com 30 alunos, não é na hora que você quer, e nem do jeito que você quer. Existe uma orientação portanto é algo mediado. Tudo é organizado dentro de um quadro de horários e isso é cansativo. Podem até ser disciplinas mais tranquilas mas pode causar um cansaço, e até seu descanso é determinado por orientação.

O ensino integral tem muitas discussões a serem feitas. Talvez seja uma boa proposta, não sei dizer. Não sou uma estudiosa do ensino integral. Na escola onde eu trabalho, ela tem que oferecer o ensino regular além do ensino integral. Pode matricular seu filho no integral ou regular. Qual o problema disso? Tem sala vazia, tem professor efetivo. A gente tentou várias vezes fazer o integral funcionar.  É basicamente isso. Um posto de saúde tem que servir para atender a demanda da comunidade. Se não, não tem sentido. 

AND: Natália, suas considerações finais por favor.

Tenho esperança de que com a audiência pública, com as assinaturas, demonstrando interesse da comunidade, e retornaremos o ensino médio regular pra escola. Peço ajuda de todo mundo que é da comunidade e que não é, mas que luta pela escola pública. É que ele tenha cada vez mais qualidade, voz, e valor, e sempre exista. Que ela atenda as demandas das pessoas que trabalham ali. Lutar pela escola é lutar pelo futuro. Precisa ser mantido.

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